Esquecer faz parte da vida. Às vezes, não lembramos onde colocamos um objeto, o nome de alguém ou até uma informação que tínhamos certeza de que sabíamos. Mas você já parou para pensar o que acontece no cérebro quando esquecemos? Embora muitas vezes o esquecimento seja visto como uma falha, ele também faz parte do funcionamento natural da memória. Nosso cérebro recebe uma enorme quantidade de informações todos os dias e precisa selecionar o que será armazenado, fortalecido ou deixado de lado. Como o cérebro forma uma memória? Para que uma informação se transforme em memória, o cérebro passa por diferentes etapas. Primeiro, precisamos prestar atenção ao que está acontecendo. Depois, essa informação é processada e pode ser armazenada. Com o tempo, algumas memórias são fortalecidas e consolidadas, enquanto outras podem enfraquecer. O hipocampo, uma região importante do cérebro, participa especialmente da formação e organização de novas memórias. Outras áreas cerebrais também trabalham em conjunto para que possamos aprender, guardar informações e recuperá-las posteriormente. Por que esquecemos? Existem diferentes motivos para uma lembrança não estar disponível quando precisamos dela. Podemos esquecer porque não prestamos atenção suficiente no momento em que recebemos determinada informação. Em outros casos, a memória foi formada, mas não foi consolidada de maneira suficientemente forte. Também podemos ter dificuldade para acessar uma informação armazenada. É aquela sensação clássica de: “Eu sei que sei, mas não consigo lembrar agora.” Além disso, novas informações podem interferir em lembranças anteriores, especialmente quando são muito parecidas. Esquecer também é importante para o cérebro Pode parecer contraditório, mas esquecer determinadas informações ajuda o cérebro a funcionar de maneira mais eficiente. Não seria possível — nem necessariamente útil — guardar com o mesmo nível de detalhe absolutamente tudo o que vemos, ouvimos e vivenciamos. O cérebro precisa priorizar informações relevantes e permitir que outras percam força ao longo do tempo. Dessa forma, conseguimos organizar melhor nossas experiências, aprender coisas novas e direcionar nossa atenção para aquilo que realmente importa. Sono, atenção e emoções influenciam a memória A qualidade da memória não depende apenas da capacidade de “decorar”. Sono, atenção, estresse e emoções podem interferir diretamente na maneira como uma informação é registrada e posteriormente recuperada. O sono, por exemplo, desempenha um papel importante na consolidação das memórias e no aprendizado. Já quando estamos muito cansados, distraídos ou emocionalmente sobrecarregados, podemos ter mais dificuldade para prestar atenção e registrar adequadamente novas informações. E quando falamos de crianças? Durante a infância, o cérebro está em constante desenvolvimento. A memória, a atenção e outras funções cognitivas também amadurecem progressivamente. Por isso, esquecer uma orientação, perder um objeto ou não lembrar imediatamente de algo aprendido não significa, isoladamente, que exista algum problema. É importante observar o contexto, a frequência e se essas dificuldades estão interferindo na aprendizagem, na rotina ou nas atividades da criança. Quando os esquecimentos são muito frequentes, apresentam mudanças importantes em relação ao comportamento habitual ou vêm acompanhados de outras dificuldades, uma avaliação profissional pode ajudar a compreender melhor o que está acontecendo. Como podemos favorecer a memória das crianças? Alguns hábitos simples podem contribuir para o aprendizado e para o funcionamento saudável do cérebro: Manter uma rotina de sono adequada; Reduzir distrações durante momentos de estudo; Fazer pausas entre períodos de concentração; Estimular leitura, brincadeiras e atividades que envolvam raciocínio; Repetir informações importantes de maneiras diferentes; Associar novos conhecimentos a experiências que a criança já conhece; Manter uma rotina equilibrada entre estudos, atividades físicas, lazer e descanso. Esquecer nem sempre significa perder uma memória Muitas vezes, uma informação continua armazenada, mas o cérebro encontra dificuldade momentânea para acessá-la. Por isso, aquela lembrança que parecia ter desaparecido pode surgir minutos, horas ou até dias depois. A memória humana não funciona como um arquivo perfeito. Ela é dinâmica, seletiva e está constantemente sendo reorganizada. Entender o esquecimento também é uma forma de entender como o cérebro aprende. Se você perceber mudanças importantes na memória, atenção, aprendizagem ou comportamento do seu filho, converse com o pediatra. A avaliação individualizada permite compreender cada situação dentro do desenvolvimento e das necessidades de cada criança. Dra. Mônica Picchi Pediatra