Telas na infância: como o excesso pode impactar o desenvolvimento das crianças Celulares, tablets, televisores e videogames fazem parte da rotina das famílias. A tecnologia está presente na escola, nos momentos de lazer e até na comunicação com outras pessoas. O problema não está simplesmente na existência das telas, mas em como, quando e por quanto tempo elas ocupam espaço na rotina da criança. Durante a infância, o cérebro está em intenso desenvolvimento. Brincar, conversar, explorar ambientes, movimentar o corpo, dormir adequadamente e interagir com outras pessoas são experiências fundamentais para esse processo. Quando o tempo diante das telas começa a substituir essas atividades, alguns aspectos do desenvolvimento infantil podem ser prejudicados. Como o excesso de telas pode afetar as crianças? O uso excessivo de dispositivos eletrônicos pode interferir em diferentes áreas da rotina e do desenvolvimento. Entre os principais pontos que merecem atenção estão: Sono: o uso de telas, principalmente próximo ao horário de dormir, pode dificultar o processo de desaceleração da criança e prejudicar a qualidade do sono. Atenção e concentração: conteúdos muito rápidos e altamente estimulantes podem tornar mais difícil sustentar a atenção em atividades que exigem concentração por períodos maiores. Comportamento: quando a tela se torna a principal forma de entretenimento ou de regulação emocional, algumas crianças podem apresentar maior dificuldade para lidar com frustrações, limites e momentos de espera. Aprendizagem: crianças aprendem principalmente por meio da interação com o ambiente e com outras pessoas. Conversar, brincar, perguntar, imaginar e experimentar são experiências que uma tela não consegue substituir completamente. Desenvolvimento social: o contato presencial ajuda a criança a interpretar expressões, desenvolver linguagem, compreender emoções e aprender habilidades importantes para a convivência. Nem todo tempo de tela é igual Também é importante evitar uma visão de que toda tecnologia é necessariamente prejudicial. Existe diferença entre uma criança passar horas consumindo vídeos de maneira passiva e utilizar um recurso digital adequado à idade, com objetivo educativo e acompanhamento de um adulto. Por isso, além de observar quanto tempo a criança permanece conectada, os pais devem prestar atenção em qual conteúdo ela consome, em quais momentos e de que maneira essa tecnologia está sendo utilizada. Os pais também são referência As crianças aprendem muito mais observando comportamentos do que apenas ouvindo orientações. Se durante as refeições, conversas ou momentos em família os adultos estão constantemente olhando para o celular, é natural que a criança entenda esse comportamento como parte da rotina. Criar momentos sem dispositivos para toda a família pode ser uma estratégia importante. Refeições, brincadeiras, passeios e o período que antecede o sono são boas oportunidades para estimular presença, conversa e conexão. Como criar uma relação mais saudável com as telas? Não é necessário transformar a tecnologia em uma inimiga. O objetivo deve ser estabelecer equilíbrio. Algumas atitudes podem ajudar: Defina horários e limites claros para o uso dos dispositivos. Evite telas durante as refeições. Reduza o uso próximo ao horário de dormir. Observe se o conteúdo é apropriado para a idade. Sempre que possível, acompanhe o que a criança está assistindo. Incentive atividades físicas, brincadeiras, leitura e interação com outras crianças. Evite utilizar o celular ou tablet como única estratégia para acalmar a criança. Dê o exemplo mantendo também momentos sem celular. Mais importante do que simplesmente retirar uma tela é oferecer alternativas interessantes para ocupar aquele espaço. Quando os pais devem ficar atentos? Algumas mudanças podem indicar que a relação com as telas precisa ser reavaliada. Dificuldade excessiva para interromper o uso, irritabilidade intensa quando o aparelho é retirado, alterações importantes no sono, abandono de brincadeiras que antes eram interessantes ou perda de interesse por atividades sociais merecem atenção. Cada criança possui uma rotina, uma idade e necessidades diferentes. Por isso, as orientações precisam considerar o desenvolvimento individual e o contexto familiar. Equilíbrio também faz parte do desenvolvimento A tecnologia continuará fazendo parte da vida das crianças. Portanto, mais do que simplesmente proibir, precisamos ensiná-las gradualmente a desenvolver uma relação saudável e consciente com o mundo digital. Na infância, experiências simples continuam sendo insubstituíveis: brincar, correr, conversar, imaginar, ouvir histórias, explorar o mundo e estar presente com quem se ama. Cuidar do tempo de tela também é cuidar do desenvolvimento infantil. Em caso de dúvidas sobre comportamento, sono ou desenvolvimento da criança, converse com o pediatra. A avaliação individualizada é sempre a melhor forma de orientar cada família. Dra. Mônica Picchi | Pediatria