Você já tomou uma decisão e, poucos minutos depois, pensou: “Por que eu fiz isso?” Comprar algo sem precisar, responder uma mensagem no calor do momento, interromper alguém, aceitar um desafio sem pensar nas consequências ou agir movido pela raiva são exemplos de comportamentos impulsivos. Na infância e, principalmente, na adolescência, isso pode acontecer com ainda mais frequência. E existe uma explicação importante: nosso cérebro participa diretamente da maneira como avaliamos riscos, controlamos impulsos e tomamos decisões. O que acontece no cérebro quando agimos por impulso? Tomar uma decisão envolve diferentes áreas do cérebro trabalhando em conjunto. Uma delas é o córtex pré-frontal, região relacionada ao planejamento, controle dos impulsos, avaliação das consequências e tomada de decisões. Durante a infância e a adolescência, essa região ainda está em processo de desenvolvimento e amadurecimento. Ao mesmo tempo, sistemas cerebrais ligados às emoções, recompensas e busca por novidades podem exercer grande influência sobre o comportamento. Por isso, diante de uma situação muito estimulante ou emocional, pode ser mais difícil parar, avaliar as consequências e só depois agir. Por que isso é tão comum na adolescência? A adolescência é um período marcado por grandes transformações físicas, emocionais e cerebrais. O desejo de experimentar coisas novas, conquistar autonomia, pertencer a um grupo e receber recompensas imediatas pode ter um peso importante nas escolhas. Isso ajuda a entender comportamentos como: responder antes de pensar; assumir riscos sem avaliar completamente as consequências; tomar decisões influenciadas pelos amigos; ter dificuldade para esperar por uma recompensa; agir intensamente diante de frustrações ou emoções. Isso não significa que todo adolescente será impulsivo ou que comportamentos inadequados devam simplesmente ser ignorados. Significa que compreender o desenvolvimento cerebral ajuda pais e responsáveis a orientar de maneira mais consciente. Emoções também influenciam nossas escolhas Quando estamos com raiva, medo, ansiedade, euforia ou frustração, nossa capacidade de analisar uma situação com calma pode diminuir. Por isso, aquela conhecida orientação de “pensar antes de agir” realmente faz sentido. Criar um pequeno intervalo entre o impulso e a ação pode ajudar o cérebro a processar melhor o que está acontecendo. Perguntas simples podem contribuir: “O que pode acontecer se eu fizer isso?” “Como vou me sentir depois?” “Existe outra maneira de resolver essa situação?” Como ajudar crianças e adolescentes a desenvolver autocontrole? O autocontrole também pode ser desenvolvido ao longo do tempo. Conversas abertas, estabelecimento de limites, rotina adequada, sono de qualidade e oportunidades para que crianças e adolescentes participem de decisões compatíveis com sua idade podem favorecer esse processo. Mais do que apenas dizer “não faça isso”, é importante ajudá-los a compreender por que determinada escolha pode trazer consequências. Quando ensinamos uma criança ou adolescente a reconhecer suas emoções, avaliar alternativas e refletir antes de agir, também estamos contribuindo para o desenvolvimento de habilidades que serão importantes durante toda a vida. Quando a impulsividade merece atenção? Comportamentos impulsivos podem fazer parte do desenvolvimento. Porém, quando são muito frequentes, intensos ou começam a prejudicar a rotina, os relacionamentos, a escola ou a segurança da criança ou do adolescente, é importante conversar com o pediatra. Cada criança se desenvolve de uma maneira, e a avaliação individual ajuda a entender melhor o comportamento dentro de todo o contexto. Informação também faz parte do cuidado Compreender como o cérebro se desenvolve nos ajuda a olhar para determinados comportamentos com mais conhecimento e a oferecer orientação adequada em cada fase da infância e da adolescência. Dra. Mônica Picchi | Pediatra Acompanhando cada etapa do desenvolvimento com informação, cuidado e acolhimento.